Subjetividade e captura do desejo em Deleuze & Guattari - Citações

 

A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista ou um tecnocrata atuais não desejam da mesma maneira que um mercador de escravos ou que um funcionário do antigo império chinês. Que as pessoas numa sociedade desejem a repressão para os outros e para si mesmas; que haja sempre pessoas que queiram lixar outras e que tenham a possibilidade de fazê-lo, o “direito” de fazê-lo, é isso que manifesta o problema de um liame profundo entre o desejo libidinal e o campo social. Um amor “desinteressado” pela máquina opressiva: Nietzsche disse coisas belas sobre esse triunfo permanente dos escravos, sobre a maneira como os azedados, os deprimidos, os débeis nos impõem o seu modo de vida. […] Em vez disso, falam-nos “de ideologia”. Mas a ideologia não tem importância alguma: o que conta não é a ideologia, nem sequer a distinção ou a oposição “econômico-ideológico”, é a organização de poder. Porque a organização de poder é a maneira como o desejo já está no econômico, como a libido investe o econômico, assedia o econômico e alimenta as formas políticas de repressão. (Gilles Deleuze, A ilha deserta, p. 332 e 333, Iluminuras, 2006, tradução de Luiz Orlandi).


Nós nunca falamos de identificação entre o analista e o esquizofrênico. Nós dissemos que o analista, tanto quanto o militante, o escritor ou quem quer que seja, está mais ou menos engajado num processo esquizo. E nós sempre distinguimos o processo esquizo do esquizofrênico de hospital, cujo processo esquizo está precisamente bloqueado ou girando em falso. Nós não dissemos que os revolucionários deveriam identificar-se com os loucos que estão girando em falso, mas sim que deviam fazer seus empreendimentos funcionarem à maneira do processo esquizo. [...] Trata-se aqui da energia libidinal em seu processo de desterritorialização, e não da estagnação desse processo. O analista, assim como o militante, deve derivar com o processo e não se colocar a serviço da repressão social edipianizante. (Félix Guattari, A revolução molecular, p. 32-33, Ubu Editora, 2024, tradução de Larissa Drigo)


Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle. […] Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos. (Gilles Deleuze, Conversações, p. 217-218, Editora 34, 1992, tradução de Peter Pál Pelbart)