Cartografia do desejo em Deleuze & Guattari - Aula 1
O investimento libidinal inconsciente de desejo
Em sua tarefa destrutiva, a esquizoanálise deve proceder com a maior rapidez possível, mas também só pode proceder com uma grande paciência, uma grande prudência, desfazendo sucessivamente as territorialidades e as reterritorializações representativas pelas quais um sujeito passa na sua história individual. Isto porque há várias camadas, vários planos de resistência vindos de dentro ou impostos de fora. A esquizofrenia como processo, a desterritorialização como processo, é inseparável das estases que a interrompem, ou então que a exasperam, ou que a fazem girar em roda, e que a reterritorializam em neurose, em perversão, em psicose. Isto ocorre a tal ponto que o processo só pode se desembaraçar, perseverar em si mesmo e se efetuar, na medida em que for capaz de criar — o quê, então? — uma terra nova. É preciso, em cada caso, voltar a passar pelas velhas terras, estudar sua natureza, sua densidade, pesquisar como se agrupam em cada uma os índices maquínicos que permitem ultrapassá-la. Terras familiares edipianas da neurose, terras artificiais da perversão, terras asilares da psicose — como, a cada vez, reconquistar nelas o processo, retomar constantemente a viagem? […] Essa viagem não implica necessariamente grandes movimentos em extensão, ela se faz imóvel, num quarto ou num corpo sem órgãos, viagem intensiva que desfaz as terras em proveito da que ela cria. (O anti-Édipo, p. 420-422, Editora 34, 1ª edição, 2010)
Mas a tarefa negativa ou destrutiva da esquizoanálise não é de maneira alguma separável de suas tarefas positivas (e todas são necessariamente conduzidas ao mesmo tempo). A primeira tarefa positiva consiste em descobrir num sujeito a natureza, a formação ou o funcionamento de suas máquinas desejantes, independentemente de toda interpretação. O que são as suas máquinas desejantes? o que você faz entrar nelas? o que você faz sair delas? como isso funciona? quais são os seus sexos não humanos? O esquizoanalista é um mecânico, e a esquizoanálise é unicamente funcional. (O anti-Édipo, p. 426, Editora 34, 1ª edição, 2010)
No conflito de gerações, é comum ouvir velhos censurarem jovens de maneira acentuadamente malévola, dizendo que estes fazem passar seus desejos (carro, crédito, empréstimo, relações moças-rapazes) antes do seu interesse (trabalho, poupança, bom casamento). Porém, naquilo que parece desejo bruto a outrem, há ainda complexos de desejo e de interesse, e uma mistura de formas precisamente reacionárias e vagamente revolucionárias tanto de um quanto do outro. A situação é totalmente emaranhada. Parece que a esquizoanálise pode dispor apenas de índices — os índices maquínicos — para desemaranhar os investimentos libidinais do campo social no nível dos grupos ou dos indivíduos. Ora, sob este aspecto, é a sexualidade que constitui os índices. (O anti-Édipo, p. 464-465, Editora 34, 1ª edição, 2010)
Em suma, nossos investimentos libidinais do campo social, reacionários ou revolucionários, são tão bem escondidos, tão inconscientes, tão recobertos pelos investimento s pré-conscientes que eles só aparecem em nossas escolhas sexuais amorosas. Um amor não é reacionário nem revolucionário, mas é o índice do caráter reacionário ou revolucionário dos investimentos sociais da libido. […] Certamente, não é a libido, como acreditava Freud, que deve dessexualizar-se e sublimar-se para investir a sociedade e seus fluxos, mas, ao contrário, é o amor, o desejo e seus fluxos que manifestam o caráter imediatamente social da libido não sublimada e dos seus investimentos sexuais. (O anti-Édipo, p. 468-469, Editora 34, 1ª edição, 2010)
Como energia sexual, a libido é diretamente investimento de massas, de grandes conjuntos e de campos orgânicos e sociais. [...] Na verdade a sexualidade está em toda parte: na maneira como um burocrata acaricia os seus dossiês, como um juiz distribui justiça, como um homem de negócios faz circular o dinheiro, como a burguesia enraba o proletariado etc. […] Hitler dava tesão nos fascistas. As bandeiras, as nações, os exércitos e os bancos dão tesão em muita gente. Uma máquina revolucionária nada é enquanto não adquirir pelo menos tanta potência de corte e de fluxo quanto essas máquinas coercivas. (O anti-Édipo, p. 386-387, Editora 34, 1ª edição, 2010)