Bergson: A energia espiritual - Aula 1

 

A consciência e a vida


Apenas, em diferentes regiões da experiência creio perceber grupos diversos de fatos, cada um dos quais, sem dar-nos o conhecimento desejado, aponta-nos uma direção onde encontrá-lo. Ora, ter uma direção já é alguma coisa. E ter várias é muito, pois essas direções devem convergir num mesmo ponto, e é justamente esse ponto que estamos buscando. Em resumo, possuímos desde já algumas linhas de fatos, que não vão tão longe quanto seria preciso, mas que podemos prolongar hipoteticamente. Eu gostaria de seguir com os senhores algumas delas. Cada uma, tomada isoladamente, nos conduzirá a uma conclusão simplesmente provável; mas todas juntas, por sua convergência, vão colocar-nos diante de uma tal acumulação de probabilidades que nos sentiremos, assim espero, no caminho da certeza. Aliás, iremos aproximar-nos dela indefinidamente, pelo esforço conjunto das boas vontades associadas. Pois a filosofia então já não será uma construção, uma obra sistemática de um pensador único. Comportará e atrairá continuamente adições, correções, retoques. Avançará como a ciência positiva. Será feita, também ela, em colaboração. (A energia espiritual, p. 4, WMF Martins Fontes, 2009, tradução de Rosemary Costhek Abílio).


Reter o que já não é, antecipar o que ainda não é: eis aí portanto a primeira função da consciência. Para ela não haveria presente, se o presente se reduzisse ao instante matemático. Esse instante é apenas o limite puramente teórico que separa o passado do futuro; pode, a rigor, ser concebido, mas nunca é percebido: quando julgamos surpreendê-lo, já está longe de nós. O que realmente percebemos é uma certa espessura de duração que se compõe de duas partes: nosso passado imediato e nosso futuro iminente. Sobre esse passado estamos apoiados, sobre esse futuro estamos debruçados; apoiar-se e debruçar-se assim é específico de um ser consciente. Podemos dizer, portanto, que a consciência é um traço de união entre o que foi e o que será, uma ponte lançada entre o passado e o futuro. Mas para que serve essa ponte e o que cabe à consciência fazer? […] Ora, à medida que descemos ao longo da série animal, encontramos uma separação cada vez menos nítida entre as funções da medula e as do cérebro. A faculdade de escolher, localizada primeiro no cérebro, vai progressivamente se estendendo para a medula, que, aliás, constrói então um número menor de mecanismos e sem dúvida também os monta com menos precisão. Por fim, onde o sistema nervoso é rudimentar e mais ainda onde já não existem elementos nervosos distintos, automatismo e escolha fundem-se: a reação simplifica-se o bastante para parecer quase mecânica; entretanto ainda hesita e tateia, como se fosse voluntária. […] Em resumo, de alto a baixo da vida animal vemos exercer-se, embora de forma cada vez mais vaga à medida que vamos descendo, a faculdade de escolher, isto é, de responder a uma determinada excitação com movimentos menos ou mais imprevistos. É isso que encontramos em nossa segunda linha de fatos. Assim se completa a conclusão a que chegávamos inicialmente; pois, se, como dizíamos, a consciência retém o passado e antecipa o futuro, sem dúvida é precisamente porque é chamada a efetuar uma escolha: para escolher, é preciso pensar no que se poderá fazer e rememorar as consequências, vantajosas ou prejudiciais, do que já se fez; é preciso prever e é preciso lembrar. (A energia espiritual, p. 5-10, WMF Martins Fontes, 2009)


Mas chegaríamos à mesma conclusão também seguindo uma terceira linha de fatos, considerando no ser vivo a representação que precede o ato e não mais a ação propriamente dita. Por qual indício costumamos reconhecer o homem de ação, aquele que deixa sua marca nos acontecimentos em que a sorte o envolve? Não é por ele abarcar uma sucessão menos ou mais longa numa visão instantânea? Quanto maior é a porção do passado que cabe em seu presente, mais pesada é a massa que ele lança no futuro para pressionar contra as eventualidades que se preparam: sua ação, como uma flecha, dispara para a frente com tanto mais força quanto mais retesada para trás era sua representação. […] Quando abro os olhos e imediatamente torno a fechá-los, a sensação de luz que experimento, e que cabe em um de meus momentos, é a condensação de uma história extraordinariamente longa que se desenrola no mundo exterior. […] Então, acaso não devemos crer que, se nossa percepção contrai assim os eventos da matéria, é para que nossa ação os domine? (A energia espiritual, p. 14-16, WMF Martins Fontes, 2009)


Vamos colocar-nos agora no ponto em que essas diferentes linhas de fatos convergem. […] Visivelmente, diante de nós trabalha uma força que procura libertar-se de seus entraves e também superar a si mesma, dar primeiro tudo o que tem e em seguida mais do que tem: como definir de outro modo o espírito? e em que a força espiritual, se existe, se distinguiria das outras, senão pela faculdade de tirar de si mais do que contém? […] Assim sendo, coloquemos frente a frente matéria e consciência: veremos que a matéria é primeiramente o que divide e o que especifica. Um pensamento entregue a si mesmo oferece uma implicação recíproca de elementos que não podemos dizer que sejam um ou vários: é uma continuidade, e em toda continuidade há confusão. Para tornar-se distinto o pensamento precisa espalhar-se em palavras: só entendemos bem o que temos no espírito quando pegamos uma folha de papel e alinhamos lado a lado termos que se interpenetravam. Assim a matéria distingue, separa, decompõe em individualidades e, por fim, em personalidades, tendências outrora confundidas no elã original da vida. Por outro lado, a matéria provoca e torna possível o esforço. O pensamento que é apenas movimento, a obra de arte apenas concebida, o poema apenas sonhado ainda não custam trabalho; o que exige esforço é a realização material do poema em palavras, da concepção artística em estátua ou quadro. O esforço é penoso, mas também é valioso, ainda mais valioso do que a obra em que resulta, porque graças a ele a pessoa tirou de si mais do que tinha, elevou-se acima de si mesma. Ora, esse esforço não teria sido possível sem a matéria: pela resistência que ela opõe e pela docilidade a que podemos levá-la, é ao mesmo tempo obstáculo, instrumento e estimulante; põe à prova nossa força, conserva-lhe a marca e pede-lhe intensificação. (A energia espiritual, p. 17, 20-22, WMF Martins Fontes, 2009)


Os filósofos que especularam sobre o significado da vida e sobre o destino do homem não observaram bem a que a própria natureza se deu ao trabalho de informar-nos sobre isso: avisa-nos por meio de um sinal preciso que nossa destinação foi alcançada. Esse sinal é a alegria. Estou falando da alegria, não do prazer. O prazer não passa de um artifício imaginado pela natureza para obter do ser vivo a conservação da vida; não indica a direção em que a vida é lançada. Mas a alegria sempre anuncia que a vida venceu, que ganhou terreno, que conquistou uma vitória: toda grande alegria tem um toque triunfal. Ora, se levarmos em conta essa indicação e seguirmos essa nova linha de fatos, veremos que em toda parte há alegria, há criação [“vemos que sempre que há alegria há criação”, na tradução de Franklin Leopoldo e Silva]: quanto mais rica é a criação, mais profunda é a alegria. […] Portanto, se em todos os âmbitos o triunfo da vida é a criação, não devemos supor que a vida humana tem sua razão de ser em uma criação que, diferentemente daquela do artista e do cientista, pode prosseguir a todo momento em todos os homens: a criação de si por si, o engrandecimento da personalidade por um esforço que extrai muito do pouco, alguma coisa do nada e aumenta incessantemente a riqueza que havia no mundo? […] O homem, incessantemente convidado a apoiar-se na totalidade de seu passado para pressionar ainda mais poderosamente o futuro, é o grande êxito da vida. Mas criador por excelência é aquele cuja ação, sendo intensa, é capaz de intensificar também a ação dos outros homens e de ativar, generosa, focos de generosidade. Os grandes homens de bem, e mais particularmente aqueles cujo heroísmo inventivo e simples abriu para a virtude caminhos novos, são reveladores de verdade metafísica. Por mais que estejam no ponto culminante da evolução, estão muito perto das origens e tornam sensível a nossos olhos o impulso que vem do fundo. Consideremo-los atentamente, procuremos experimentar simpaticamente o que experimentam, se quisermos penetrar, por um ato de intuição, no próprio princípio da vida. (A energia espiritual, p. 22-25, WMF Martins Fontes, 2009)