Bergson: As duas fontes da moral e da religião - Aula 1

 

A obrigação moral


Consideremos duas linhas divergentes de evolução, e sociedades na extremidade de uma e de outra. O tipo de sociedade que parecerá o mais natural será evidentemente o tipo instintivo: o vínculo que une as abelhas da colmeia entre si assemelha-se muito mais àquele que conserva juntas as células de um organismo, coordenadas e subordinadas umas às outras. Suponhamos por um momento que a natureza tenha pretendido, na extremidade da outra linha, obter sociedades em que fosse deixada certa margem à escolha individual: ela terá feito com que no caso a inteligência obtivesse resultados comparáveis aos do instinto na outra extremidade, no que respeita a sua regularidade; ela terá recorrido ao hábito. Cada um desses hábitos, a que se poderá chamar “morais”, será contingente. Mas seu conjunto, quero dizer, o hábito de contrair esses hábitos, sendo a própria base das sociedades e condicionando sua existência, terá uma força comparável à do instinto, tanto em intensidade como em regularidade. Isso precisamente é o que chamamos “o todo da obrigação”. De resto, tratar-se-á apenas de sociedades humanas tais quais são ao sair das mãos da natureza. Tratar-se-á de sociedades primitivas e elementares. Mas em vão a sociedade humana progredirá, se requintará e se espiritualizará: o estatuto de sua fundação permanecerá, ou antes a intenção da natureza. Ora, foi precisamente assim que as coisas se passaram. […] A vida social é desse modo imanente, como um vago ideal, ao instinto como à inteligência; esse ideal encontra a sua realização mais completa na colmeia ou no formigueiro, de um lado, e de outro nas sociedades humanas. […] Mas, na colmeia ou no formigueiro, o indivíduo está cravado a seu emprego por sua estrutura, e a organização é relativamente invariável, ao passo que a comunidade humana é de forma variável, aberta a todo progresso. Resulta disso que, nas primeiras, cada regra é imposta pela natureza; ela é necessária; ao passo que nas demais uma coisa apenas é natural: a necessidade de um regra. (As duas fontes da moral e da religião, p. 22-23, Zahar Editores, 1978)


Estivemos à procura da obrigação pura. Para encontrá-la, tivemos de reduzir a moral à sua expressão mais simples. A vantagem foi perceber em que consiste a obrigação. O inconveniente foi encolher enormemente a moral. […] Vejamos agora o que seria a moral completa. […] Desde a eternidade surgiram homens excepcionais nos quais e encarnava essa moral. Antes dos santos do cristianismo, a humanidade conheceu os sábios da Grécia, os profetas de Israel, os iluminados do budismo e outros mais. […] Eles não precisam fazer exortações; basta que existam, sua existência é um chamado. Pois esse é justamente o caráter dessa outra moral. Ao passo que a obrigação natural é pressão ou empurrão, na moral completa e perfeita há um chamado. […] Donde lhe vem sua força? Qual o princípio de ação que sucede no caso à obrigação natural ou antes que termina por absolvê-la? […] Não nos parece duvidoso que uma emoção nova esteja na origem das grandes criações da arte, da ciência e da civilização em geral. Não apenas porque a emoção é um estimulante, mas porque incita a inteligência a empreender e a vontade a perseverar. É preciso ir muito mais além. Há emoções que são geradoras de pensamento; e a invenção, embora de ordem intelectual, pode ter sensibilidade por substância. […] Criação significa, antes de tudo, emoção. Não se trata apenas da literatura e da arte. Sabe-se o que uma descoberta científica implica de concentração e de esforço. O gênio foi definido como prolongada paciência. […] Digamos que o problema que inspirou interesse é uma representação revestida de certa emoção, e que a emoção, sendo ao mesmo tempo curiosidade, desejo e gozo antecipado de resolver um problema determinado, é peculiar com a representação. Ela é que impele a inteligência para a frente, apesar dos obstáculos. Ela sobretudo é que vivifica, ou antes, que vitaliza, os elementos intelectuais com os quais fará corpo; junta a todo momento o que se poderá organizar com eles, e obtém finalmente do enunciado do problema que ele desabroche em solução. Que não seria isso na literatura e na arte! A obra de gênio no mais das vezes origina-se de uma emoção única em seu gênero, que se acreditaria inexprimível, e que quis exprimir-se. Mas não acontece assim com toda obra, por mais imperfeita que seja, em que entre uma parte de criação? Quem se empenhe na composição literária terá verificado a diferença entre a inteligência entregue a si mesma e aquela que consome com o seu fogo a emoção original e única, nascida de uma coincidência entre o autor e seu assunto, isto é, de uma intuição. No primeiro caso o espírito labora a frio, combinando ideias entre si, há muito vazadas em palavras, que a sociedade lhe entrega em estado sólido. No segundo, parece que os materiais fornecidos pela inteligência entram previamente em fusão, e que se solidificam em seguida de novo em ideias agora nutridas pelo próprio espírito: se essas ideias acham palavras preexistentes para as exprimir, isso constitui para cada uma o efeito da boa sorte inesperada; e, na verdade, sempre foi preciso ajudar o acaso, e forçar o sentido da palavra para que se modelasse ao pensamento. O esforço é agora doloroso, e o resultado aleatório. Mas é então somente que o espírito se sente ou se crê criador. Ele já não parte da multiplicidade de elementos existentes para culminar numa unidade compósita em que haja novo arranjo do antigo. Ele foi arrebatado de repente a algo que parece ao mesmo tempo único e peculiar, que procurará em seguida exibir-se bem ou mal em conceitos múltiplos e vulgares, dados de antemão em palavras. Em suma, ao lado da emoção que é o efeito da representação, e que a ela se acrescenta, existe aquela que precede a representação, que a contém virtualmente e que até certo ponto lhe é a causa. O drama teatral que não passa de peça literária poderá abalar nossos nervos e suscitar uma emoção do primeiro gênero, intensa sem dúvida, mas banal, colhida entre as que sentimos comumente na vida, mas de qualquer modo vazia de representação. Mas a emoção provocada em nós por uma grande obra dramática é de natureza inteiramente diferente: única em seu gênero, ela saiu da alma do poeta, e apenas lá, antes de estremecer a nossa; dela é que saiu a obra, porque a ela é que o autor se referia durante a composição da obra. (As duas fontes da moral e da religião, p. 28-39, Zahar Editores)


Isso não quer dizer absolutamente que ao reservar grande espaço à emoção na gênese da moral estejamos de algum modo apresentando uma “moral de sentimentos”. Porque se trata de uma emoção suscetível de cristalizar em representações, e mesmo em doutrina. Dessa doutrina, como de qualquer outra, não se poderia deduzir essa moral; nenhuma especulação criaria uma obrigação ou coisa alguma que se assemelhe a ela; pouco me importa a beleza da teoria, já que sempre poderia dizer que não a aceito; e, ainda que a aceitasse, aspiraria a continuar livre para me conduzir a meu modo. Mas se a atmosfera da emoção estiver presente, se eu a tiver respirado, se a emoção me penetrar, agirei de acordo com ela, sacudido por ela. Não coagido ou obrigado, mas em virtude de uma inclinação a qual não quereria resistir. (As duas fontes da moral e da religião, p. 39-40, Zahar Editores)