Audioaula "Deleuze & Guattari - A família edipiana", em 05/09/24
A força de Reich consiste em ter mostrado como o recalcamento depende da repressão. Isto não implica confusão alguma dos dois conceitos, pois a repressão tem necessidade do recalcamento precisamente para formar sujeitos dóceis e assegurar a reprodução da formação social, inclusive nas suas estruturas repressivas. Porém, em vez de achar que a repressão social deva ser compreendida a partir de um recalcamento familiar coextensivo à civilização, este é que deve ser compreendido em função de uma repressão inerente a uma dada forma de produção social. […] O recalcamento distingue-se da repressão pelo caráter inconsciente da operação e do seu resultado (“mesmo a inibição da revolta se tornou inconsciente”), distinção que exprime bem a diferença de natureza, embora não se possa concluir dela uma independência real entre ambos. O recalcamento é tal que a repressão devém desejada, deixando de ser consciente; e ele induz um desejo de consequência, uma imagem falsificada daquilo sobre o que ele incide, o que lhe dá uma aparente independência. O recalcamento propriamente dito é um meio a serviço da repressão. E aquilo sobre o que ele incide, a produção desejante, é também objeto da repressão. Mas, justamente, o recalcamento implica uma dupla operação original: uma, pela qual a formação social repressiva delega o seu poder a uma instância recalcante; e outra, pela qual, correlativamente, o desejo reprimido é como que recoberto pela imagem deslocada e falsificada que o recalcamento suscita. Tem-se, ao mesmo tempo, uma delegação de recalcamento pela formação social e uma desfiguração, um deslocamento da formação desejante pelo recalcamento. O agente delegado do recalcamento, ou antes, delegado ao recalcamento, é a família; a imagem desfigurada do recalcado são as pulsões incestuosas. O complexo de Édipo, a edipianização, é, portanto, fruto desta dupla operação. É num mesmo movimento que a produção social repressiva se faz substituir pela família recalcante, e que esta dá, da produção desejante, uma imagem deslocada que representa o recalcado como pulsões familiares incestuosas. […] E é bem visível o interesse de uma tal operação do ponto de vista da produção social, que de outro modo não poderia conjurar a potência de revolta e de revolução do desejo. Ao colocar à frente do desejo o espelho deformante do incesto (é isto que você queria, hein?), o que se faz é envergonhá-lo, estupidificá-lo, metê-lo numa situação sem qualquer saída; é persuadi-lo a facilmente renunciar a “si próprio” em nome dos interesses superiores da civilização. […] Faz-se como se a experiência desejante “se” relacionasse com os pais e como se a família fosse a lei suprema. Os objetos parciais são submetidos à famosa lei da totalidade-unidade, que atua como “faltante”. Portanto, a família se introduz na produção de desejo e vai operar, desde a mais tenra idade, um deslocamento, um recalcamento incrível. Ela é delegada ao recalcamento pela produção social. (O anti-Édipo, p. 161 a 164, Editora 34, 1ª edição, 2010)
Como corpo pleno, o socius deveio diretamente econômico enquanto capital-dinheiro; ele não tolera outro pressuposto. […] O capital é que tomou para si as relações de aliança e de filiação. Segue-se uma privatização da família, com o que ela para de dar sua forma social à reprodução econômica: ela é como que desinvestida, posta fora de campo. […] É precisamente por ser privatizada, posta fora de campo, que a forma do material ou da reprodução humana engendra homens que é fácil supor como sendo todos iguais entre si; mas, no próprio campo, a forma da reprodução social econômica já tem pré-formada a forma do material para engendrar, aí onde é preciso, o capitalista como função derivada do capital, o trabalhador como função derivada da força de trabalho etc. [...] As alianças e as filiações já não passam pelos homens, mas pelo dinheiro; então, a família devém microcosmo apta para exprimir o que ela já não domina. De certa maneira, a situação não mudou, pois o que é investido através da família é sempre o campo social econômico, político e cultural, seus cortes e seus fluxos. […] Mas, de uma outra maneira, tudo mudou, porque a família, em vez de constituir e desenvolver os fatores dominantes da reprodução social, se contenta em aplicar e envolver estes fatores em seu próprio modo de reprodução. Assim, pai, mãe e filho devêm simulacros das imagens do capital (“Senhor Capital, Senhora Terra” e seu filho, o Trabalhador...). […] Tudo se assenta sobre o triângulo pai-mãe-filho, que ressoa respondendo “papai-mamãe” a cada vez que as imagens do capital o estimulam. Em suma, Édipo chega: ele nasce da aplicação, no sistema capitalista, das imagens sociais de primeira ordem às imagens familiares privadas de segunda ordem. Ele é o conjunto de chegada que responde a um conjunto de partida socialmente determinado. Ele é nossa formação colonial íntima que responde à forma de soberania social. […] No conjunto de partida há o patrão, o chefe, o padre, o tira, o fiscal da receita, o soldado, o trabalhador, todas as máquinas e territorialidades, todas as imagens sociais da nossa sociedade; mas, no conjunto de chegada, só há, no limite, papai, mamãe e eu. […] “Então” é seu pai, então é sua mãe, então é você: a conjunção familiar resulta das conjunções capitalistas, uma vez que estas se aplicam a pessoas privatizadas. Papai-mamãe-eu: tem-se certeza de encontrá-los em toda parte, pois que tudo foi aplicado neles. […] Cada um como pequeno microcosmo triangulado, o eu narcísico confunde-se com o sujeito edipiano. (O anti-Édipo, p. 349 a 353, Editora 34, 1ª edição, 2010)