Audioaula "Deleuze & Guattari - Colonização e edipianização", em 29/08/24
As famílias selvagens formam uma práxis, uma política, uma estratégia de alianças e de filiações; formalmente, elas são os elementos motores da reprodução social; elas nada têm a ver com um microcosmo expressivo; o pai, a mãe, a irmã sempre funcionam aí como outra coisa além de pai, mãe ou irmã. E mais do que o pai, a mãe etc., há o aliado, que constitui a realidade concreta ativa e torna as relações entre as famílias coextensivas ao campo social. (O anti-Édipo, p. 221, Editora 34, 1ª edição, 2010)
O colonizador, por exemplo, abole a chefatura ou a utiliza para seus próprios fins (assim como muitas outras coisas, a chefatura ainda é pouco). O colonizador diz: seu pai é apenas seu pai, nada mais, assim como seu avô materno, não há porque tomá-los por chefes... […] sua família é apenas sua família e nada mais, a reprodução social já não passa por aí, embora tenhamos justamente necessidade de sua família para fornecer um material que será submetido ao novo regime da reprodução... Então, sim, um quadro edipiano se esboça para os selvagens espoliados: Édipo de favela. Vimos, todavia, que os colonizados permaneciam como um exemplo típico de resistência a Édipo: com efeito, é aí que a estrutura edipiana não chega a se fechar, e que seus termos continuam colados, seja em luta ou em cumplicidade, aos agentes da reprodução social opressiva (o Branco, o missionário, o cobrador de impostos, o exportador de bens, o homem notável da aldeia tornado agente da administração, os velhos que maldizem o Branco, os jovens que entram numa luta política etc.). Mas as duas coisas são verdadeiras: o colonizado resiste à edipianização e a edipianização tende a fechar-se sobre ele. Em havendo edipianização, ela é o resultado da colonização, e é preciso juntá-la a todos os procedimentos que Jaulin soube descrever em “La Paix blanche” [“A paz branca: introdução ao etnocídio”]: “O estado de colonizado pode conduzir a uma tal redução da humanização do universo que toda a solução buscada será à medida do indivíduo ou da família restrita, com o que se terá, como consequência, uma anarquia ou desordem extremas no nível do coletivo: anarquia de que o indivíduo será sempre vítima, com exceção daqueles que detêm a chave de um tal sistema, neste caso os colonizadores, os quais, nesse mesmo tempo em que o colonizado reduzirá o universo, tenderão a estendê-lo”. Édipo é algo como a eutanásia no etnocídio. Quanto mais a reprodução social escapa em natureza e extensão aos membros do grupo, mais ela se assenta sobre eles ou os assenta sobre uma reprodução familiar restrita e neurotizada da qual Édipo é o agente. (O anti-Édipo, p. 224 e 225, Editora 34, 1ª edição, 2010)
Jaulin analisa a situação dos índios a que os capuchinhos “persuadiram” a trocar sua casa coletiva por pequenas casas “pessoais”. Na casa coletiva, o recanto familiar e a intimidade pessoal estavam fundadas numa relação com o vizinho definido como aliado, de modo que as relações interfamiliares eram coextensivas ao campo social. Ao contrário disso, produz-se na nova situação “uma fermentação abusiva dos elementos do casal sobre si próprios” e sobre as crianças, de tal modo que a família restrita se fecha num microcosmo expressivo em que cada um reflete sua própria linhagem, ao mesmo tempo que o devir social e produtivo lhe escapa cada vez mais. É que Édipo não é somente um processo ideológico, mas o resultado de uma destruição do meio ambiente, do habitat etc. [nota 25 da p. 225] […] Claro que o sujeito pede e torna a pedir papai-mamãe: mas que sujeito, e em que estado? Será isto o meio de “se situar pessoalmente em sua própria sociedade”? E que sociedade? A sociedade neocolonizada que lhe inculcam, e que consegue afinal o que a colonização apenas esboçou, um efetivo assentamento das forças do desejo sobre Édipo, sobre um nome de pai, no grotesco triângulo? (O anti-Édipo, p. 225 e 227, Editora 34, 1ª edição, 2010)
Em qualquer outra parte, a posição familiar é somente um estímulo para o investimento do campo social pelo desejo: as imagens familiares só funcionam ao se abrirem às imagens sociais, [...] de modo que o que é investido através dos cortes e segmentos de famílias são os cortes econômicos, políticos, culturais do campo em que elas estão imersas. O mesmo ocorre nas zonas periféricas do capitalismo, onde o esforço feito pelo colonizador para edipianizar o indígena, Édipo africano, acha-se contrariado pela dilaceração da família segundo as linhas de exploração e de opressão sociais. Mas é no centro mole do capitalismo, nas regiões burguesas temperadas, que a colônia devém íntima e privada, interior a cada um: então, o fluxo de investimento de desejo, que vai do estímulo familiar à organização (ou desorganização) social, é de certa maneira recoberto por um refluxo que assenta o investimento social sobre o investimento familiar como pseudo-organizador. […] Cabe ao investimento reacionário do campo capitalista aplicar todas as imagens sociais aos simulacros de uma família restrita, de tal maneira que, para onde quer que se olhe, só se encontra pai-mãe: esta podridão edipiana que se cola à nossa pele. (O anti-Édipo, p. 357 e 358, Editora 34, 1ª edição, 2010)